Cantinho do Leitor #6

Presa e Predador

Luísa Lopes, 2010
Coletânea Estrelas Cadentes

Olhei-me no espelho, acreditando que dessa forma toda coragem que eu precisava surgiria feito relâmpago. Ali, trancada no banheiro, tentei reviver tudo que me trouxera até aquele momento, até aquele lugar. Meses e meses de espera, sonhando com o dia que eu conquistaria aquele garoto; sim, aquele garoto que estava atrás da porta, à espreita. E então, quando a oportunidade de tê-lo finalmente chegara, como uma presa eu correra para o banheiro dele, querendo respirar, querendo fugir de seus braços.
Encostei minhas costas na porta, tentando me acalmar. Era como se eu pudesse escutar a respiração dele através da única coisa que nos separava; eu sabia que era ele. Com o corpo forçando a porta, tentava entender o que se passava pela minha cabeça enquanto ele esperava o momento em que eu finalmente permitiria sua aproximação.
Eu também queria saber em que ele pensava; de fato, eu sabia que não era o mesmo que eu. Quantas outras já tiveram a oportunidade de tocá-lo antes de mim? Nunca me atreveria a perguntar; e, no entanto, ele sabia que seria meu primeiro. Saber o que acontecia no meu interior dava-lhe uma imensa vantagem sobre como agir, enquanto eu tentava não enlouquecer… Eu não podia enlouquecer, eu precisava me acalmar… ou o perderia para sempre.
Nunca me perdoaria se, depois de tanto tempo sendo somente a amiga, ele ficasse fora do meu alcance mais uma vez. Não, naquela noite provaria que a pessoa que ele procurava era eu, o que eu já sabia desde… sempre.
Eu nunca mais seria apenas a melhor amiga; eu seria a mulher que ele tanto queria. Não poderia ser tão difícil… Apenas por uma noite! Eu satisfaria todos os desejos canibais dele, os mesmos desejos que por anos eu sentira crescer dentro de mim e nunca tivera fibra o suficiente para concretizá-los. Eu me transformaria de presa, a predadora.
-Carol? – eu escutei-o chamando-me; seu tom de voz preocupado assustou-me por um instante. Quanto tempo perdera ali, lutando contra meus medos, contra meus desejos animais?
-Já estou saindo. – respondi, tentando soar o mais confiante possível. Uma última olhada no espelho e estaria pronta. Com a mão na maçaneta, escutei a movimentação do cômodo ao lado; ele havia me dado espaço, não me atacaria assim que eu abrisse a porta. Respirei fundo antes de sair; aquele era meu último momento de concentração, meu último momento sozinha antes de… tudo que eu, tão ferozmente, desejava.
Diante dele, à porta de seu quarto, eu o encarei; ele fitou-me em retorno e eu pude sentir a química crescendo. Eu sabia onde eu queria estar, e definitivamente não era no banheiro. Como se pudesse ler minha mente, os lábios dele abriram em um sorriso malicioso; não me contive e abri um parecido, igualmente sedutor, igualmente predador.
-O que está esperando? – foi tudo que eu consegui dizer. Ele soltou um riso sádico, tentando esconder a surpresa que minhas palavras causaram-lhe; não o recriminei, até eu não me reconhecia. O garoto se levantou, dirigindo-se a mim. Por um momento, todo aquele medo voltou a correr pelas minhas veias. Eu queria fugir, queria me esconder dele; dele e de seu corpo. Mas não… Eu não o negaria; não… Não me negaria o prazer pelo qual eu clamava. Eu já entregara meu coração a ele. O que haveria de errado em entregar o resto?

No, I won’t sleep tonight.


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